A era das promessas de curas rápidas
- ajvenancio
- 26 de dez. de 2025
- 2 min de leitura

Vivemos num tempo em que o sofrimento psicológico é cada vez mais reconhecido, mas também cada vez mais explorado. Multiplicam-se as ofertas de “cura rápida”, “transformação em poucas sessões”, “reprogramação das memórias” ou "libertação definitiva da dor". A promessa é sempre a mesma: pouco tempo, pouco esforço, grandes resultados.
Estas propostas não surgem por acaso. Vivemos numa cultura orientada para a rapidez, para a eficiência e para a eliminação do desconforto. A dor tornou-se algo a ser corrigido o mais depressa possível, como se fosse um erro técnico. No entanto, a experiência clínica mostra algo diferente: o sofrimento psicológico raramente se resolve por atalhos.
Na psicoterapia, aquilo que causa dor costuma estar ligado a padrões profundos de relação, a experiências precoces, a conflitos internos que se organizaram ao longo do tempo. Esperar que esses processos se dissolvam rapidamente é ignorar a própria natureza da vida psíquica. A psique não funciona como um sistema operativo que se atualiza com um clique.
As promessas de cura rápida tendem também a deslocar a responsabilidade para a técnica. Se algo falha, não é porque o processo é complexo, mas porque a pessoa não fez bem, não acreditou o suficiente ou resistiu. Este tipo de lógica é particularmente violento para quem já se sente frágil ou culpado pelo próprio sofrimento.
A psicoterapia não é um produto, nem um procedimento de otimização pessoal. É um trabalho relacional, que exige tempo, continuidade e disponibilidade para escutar aquilo que emerge, mesmo quando é desconfortável. Nem tudo o que dói é um obstáculo a eliminar; muitas vezes é um sinal de que algo precisa de ser reconhecido, pensado e transformado com cuidado.
Isto não significa que a psicoterapia deva ser interminável ou vaga. Significa apenas que respeita o ritmo da vida psíquica. Algumas mudanças acontecem cedo, outras mais tarde. Algumas são visíveis, outras subtis, mas o que está em causa não é a velocidade, mas a profundidade e a integração do que se transforma.
Num tempo que promete soluções imediatas para tudo, talvez o gesto mais ético da psicoterapia seja recusar promessas mágicas. Não por pessimismo, mas por respeito à complexidade humana. O trabalho psicológico sério não vende milagres, mas oferece um espaço, onde a experiência pode ser escutada e transformada de forma real e sustentada.


Comentários