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A era da terapia com IA

  • ajvenancio
  • há 3 dias
  • 4 min de leitura

O que está em jogo não é se um dia a IA “substitui” um terapeuta humano, mas perceber que tipo de relação se cria quando uma pessoa fala com um sistema que responde, e o que acontece à experiência subjectiva quando essa resposta não vem de um corpo humano presente, com um inconsciente próprio, com limites próprios, com risco próprio.


Na psicoterapia, não trabalhamos apenas com informação, trabalhamos com material vivo que precisa de ser metabolizado. Há coisas que o paciente até sabe dizer, mas não consegue “digerir” por dentro, e coisas que nem consegue dizer porque ainda não têm forma. Isso obriga a uma tarefa que é sempre relacional: alguém tem de aguentar a ansiedade do que ainda não foi pensado, do que ainda não tem nome, do que ainda está a acontecer no corpo. A pergunta decisiva é esta: quem aguenta isso com quem, e a que custo?


Quando eu falo de “dois inconscientes”, não estou a fazer poesia, estou a descrever um facto clínico. Numa análise, há o inconsciente do paciente e há o inconsciente do terapeuta. O campo relacional não é uma soma de duas consciências bem-comportadas, é um encontro entre duas realidades psíquicas, com zonas cegas, com complexos, com defesas, com vergonha, com fome de ligação e medo de ligação. É por isso que certas coisas só se transformam quando são vividas “a dois”. Há conteúdos que um inconsciente sozinho não consegue metabolizar. Precisam de um outro para serem suportados sem colapso, sem acting out, sem fuga para o intelectual.


“O encontro de duas personalidades é como a mistura de duas substâncias químicas diferentes: no caso de se dar uma reação, ambas se transformam.” Jung



Isto tem consequências directas para a questão da IA. Um sistema de IA pode ajudar a organizar pensamento, pode oferecer espelhos linguísticos, pode sugerir hipóteses, pode até funcionar como um “diário falante” que diminui a solidão imediata. Mas não tem inconsciente, não sonha, não tem vergonha, não teme perder o paciente. Não deseja, não tem corpo, sobretudo, não paga o preço de ser afectado pelo seu paciente. É aí que a clínica começa a separar o que parece semelhante do que é essencialmente diferente.


A terapia não é só “eu falo e alguém responde”, é eu falo e o outro é tocado, mesmo que em silêncio; e esse ser-tocado, quando é trabalhado com ética e com treino, torna-se um instrumento. O terapeuta aguenta a ansiedade porque aquilo que o paciente sente, muitas vezes, ainda não pode ser sentido sozinho. O terapeuta sente algo com o paciente, para que exista um lugar onde o afecto possa ser contido, traduzido, metabolizado e devolvido de forma suportável. Isso é o oposto de um chat “sempre disponível” que responde sem risco. A disponibilidade permanente pode ser um analgésico, às vezes até é útil, mas muitas vezes é um modo elegante de evitar o encontro com a falta, o vazio.


A experiência subjectiva é o centro disto. A pessoa não procura apenas uma explicação, mas procura uma forma de estar com aquilo que a habita. Procura ser vista sem ser invadida, procura um espelho que não seja apenas “concordo contigo”, mas também um limite, um atrito, uma presença que não se adapta a tudo. A IA tende a agradar, a encaixar, a manter a conversa. O humano, quando faz bem o seu trabalho, não está ali para agradar; está ali para sustentar o que é verdadeiro, mesmo quando é desagradável e isso inclui dizer: isto que está a fazer é uma fuga, isto é uma repetição, ou isto é uma defesa, isto é uma tentativa de controlo, isto é uma sedução para eu não lhe tocar no ponto sensível.


Há outro ponto que quase ninguém quer encarar, o facto da IA poder tornar-se um objecto relacional muito potente para quem tem história de abandono, vergonha, humilhação, ou medo de ser “demasiado”. Um sistema que responde sempre, sem se cansar, sem se zangar, sem falhar, pode ser vivido como um colo perfeito. E isso pode aliviar, sim, mas também pode fixar uma fantasia, “finalmente um outro que nunca me frustra”. O problema é que a vida não é assim. E a análise, quando é séria, não alimenta essa fantasia, mas ajuda a desmontá-la com cuidado, porque a fantasia de um outro perfeito costuma ser a outra face do terror de um outro real.


É aqui que entra a questão ética e clínica do uso de IA como complemento. Pode ser um apoio pontual para organizar pensamentos entre sessões, para escrever, para reflectir, para preparar temas. Pode ser um lugar de ensaio de linguagem quando a pessoa ainda não consegue falar com alguém, é pode até ajudar a detectar padrões de discurso, repetições, contradições. Mas não deve ser confundida com a experiência transformadora de uma relação analítica. Porque a transformação profunda não acontece só pela inteligência do conteúdo, mas acontece porque há um encontro que mexe com ambos, e que obriga a um trabalho de metabolização dentro de um vínculo real, com tempo, com limite, com separação e com retorno.


Se eu tivesse de dizer isto sem floreados, a IA pode ajudar, mas pode também anestesiar. Pode abrir portas, mas também pode tornar-se mais uma forma de evitar o risco de sentir com um outro humano. E o risco é parte do tratamento. Não o risco irresponsável, mas o risco inevitável de se ser realmente visto, de não controlar a resposta do outro, de confrontar com a necessidade, com a raiva, com a dependência, com a vergonha, com o desejo.


Isto não se resolve com uma resposta “boa”. Resolve-se com uma relação que aguenta, que interpreta no momento certo, que falha às vezes e repara, que põe limite, que devolve o que recebeu sem esmagar.

O futuro não é “IA ou terapeuta”, talvez o futuro seja aprender a usar ferramentas sem mentir sobre o que elas são. Se a IA for usada como ferramenta, com consciência das suas limitações, pode ser útil, mas se for usada como substituto de relação, torna-se perigosa precisamente para quem mais sofre de feridas relacionais, porque dá a ilusão de ligação sem o custo da ligação. E a psique, mais cedo ou mais tarde, cobra essa factura.





 
 
 

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António Venâncio

Dr. António Venâncio

Psicólogo Clínico

Av. da República 34, 3º andar, 

1050-053, Lisboa.

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